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Projeção Astral na ótica psicanalítica: Um delírio, realidade, patologia, espiritualidade ou fenômeno?
Publicado em: 03 de janeiro de 2012, 12:28:14  -  Lido 5988 vez(es)



- "Você como psicanalista, o que acha do assunto 'projeção astral'? Uma vez vi uma entrevista onde o entrevistado dizia que qualquer pessoa pode fazer esta tal da 'projeção astral' com um pouco de esforço, mas dizem que é apenas um delírio da mente.."



Esta questão pode ser abordada por diversos lados, e cada paradigma exigirá uma resposta diferente. Abordarei essa questão do fenômeno íntimo - religioso ou paranormal - pela via da análise, da patologia da filosofia. Vejamos o que elas tem em comum.

1) Você me pergunta COMO PSICANALISTA. Bem, não cabe a um (bom) psicanalista fazer inferências sobre a experiência de quem a relata. Não somos juízes epistemológicos da "concretude" do processo psíquico alheio, mas sim intérpretes fenomenológicos da natureza simbólica das experiências que constituem o INCONSCIENTE de nosso cliente/paciente/partilhante. Posso tratar de clientes protestantes, espíritas ou católicos do mesmo modo, independentemente da causa parapsicológica que atribuam às suas manifestações internas. O que estará em análise são os símbolos, o arquetípico, o metapsicológico, ou seja, como esta experiência (qualquer que seja) repercurte inconscientemente no psiquismo do cliente. Dizer se é sombra, diabo ou obsessor não nos diz respeito, mas todos os três parecem tem uma estrutura em comum. Se a voz do insight foi fruto de Deus, do Mentor, do Santo ou do Self também não é de meu juizo, quero antes entender o que de bom a voz trouxe, e como podemos implementar este insight INCONSCIENTE na vida consciente do sujeito.

Assim, analiso as projeções do mesmo modo que analiso fatos da vigília, pensamentos ou mesmo sonhos. Há pacientes que me relatam estupros paternos que, creio, aparentemente não existiram, a julgar por outros dados que elas mesmos me passam. Mas não sou ginecologista ou viajante no tempo. Embora EU, Lázaro, tenha elementos para crer que a descrição é fantasiosa, o fato psíquico é que a paciente reagiu há décadas a um estupro, criou defesas relativas a isso, e precisa ser analisada como tal.  Talvez tenha sido mesmo estuprada, talvez não. Mas dentro de si, foi. As imagens mentais que ela traz da experiência, concreta PARA ELA, falam muito de seu próprio psiquismo. Vale até para a maneira com a qual um paciente conta a semana que passou. Ele conta por seu filtro, com seu vocabulário, ou seja, o OBJETO INTERNO associado ao que existiu "fora" de si. O analista trabalha com isso. Se vale até para a "realidade", vale mais ainda para a projeção.

Nas palavras de Jung, somos psicoterapeutas, investigadores do INCONSCIENTE (a manifestação daquilo que não conhecemos) na psique do sujeito. Quanto às explicações, algumas devemos deixar para a teologia, para a filosofia ou para a parapsicologia. Não é de nossa alçada ou método. 

Portanto, o psicanalista precisa ser saudavelmente cético, no sentido pirrônico, de não emitir juizos sobre os relatos. Mas entendo que adotar uma postura de descrença prévia - como muitos fazem - não leve em conta o que o próprio conceito de INCONSCIENTE implica. 

Portanto, o psicanalista / psicólogo consciente, a meu ver, não só PODE lidar com essas questões fenomenologicamente, como também DEVE. Ele é ou deveria ser o recurso adequado para que o que não conhecemos sobre nós (inconsciente) tenha uma possibilidade de manejo SEM depender de ciência ou religião. Se rotulamos previamente o paciente com nossas crenças religiosas - ou com nossas descrenças "científicas" - fechamos a ele a terceira via, que seria nosso papel. E, pior, fazemos mal um papel que a ciência ou a religião é que deveriam ocupar.

2) Você falou em DELÍRIO. Dizem que é. Dizem quem? O senso-comum? Qual autor, em que trabalho, com que fundamentação? 

Bem, em todo caso, precisamos conceituar. Delírios são idéias tomadas como realidade, sem correspondência no mundo real, mas que geram alterações de posicionamento no mundo real, com certo prejuizo cognitivo, social ou funcional. São primos das alucinações, só que estas envolvem (falsas) percepções sensoriais, e o delírio é apenas mental. Se uma pessoa tem ciúme saudável de uma situação real visível (um bonitão dando em cima de minha namorada numa festa), isso é emoção, sobrevivência da espécie e prole, é natural. Mas se o ciumento cria situações imaginárias de perigos ídem, mesmo à distância ou sem motivos, e inferniza sua própria vida e a do "amado(a)" a partir de suas criações mentais, temos um DELÍRIO. A situação não existiu, mas o imaginado fez com que o doente modificasse sua relação com o mundo - para pior - a partir do que "viu" ou "imaginou". Isso é psicótico.

Ora, não me parece ser o caso de uma projeção astral ou fenomenologia espiritual saudável, vindo de pessoa ídem. O projetor sabe que a experiência se deu durante seu sono, em contexto limitado, e não sai andando feito sonâmbulo a partir dela. Seria delírio se, a partir de dados passados em uma (suposta) projeção, o "projetor" acordasse querendo se separar da mulher, ou sair voando pela janela no mundo físico, ou abrisse mão "do ego e da matéria" (como certos discursos religiosos  equivocados fazem), ou impondo "verdades astrais" para os demais (como certos gurus e professores fazem) . Aí teríamos uma realidade interna mental deixada de ser tomada para si, para em lugar disso ser imposta para o outro. Delírio, psicose.

Portanto, um não pode dizer que a experiência do outro é delírio APENAS porque não a compartilhou. O "cientista" que faz isso... delira! (mpõe a SUA realidade mental para o outro). O critério científico e psiquiátrico precisa ser melhor que isso: Normalidade, Salubridade, Naturalidade, Funcionalidade. Vale o mesmo para a mediunidade, religiosidade, etc. Como o dito projetor ou médium funciona no mundo? Tem outros traços de anormalidade, de prejuízo psíquico funcional? Tem emprego regular? Relações afetivas estáveis? Formação escolar compatível com sua capacidade? Amigos? Relações de igualdade com os demais? Comportamento sexual e afetivo adulto? Lida bem com o dinheiro, com os limites, com os desejos e vontades dos outros? Ou vive em um mundo fantasioso? Sua experiência espiritual alegada se deu em contexto apropriado? Ora, se alguém para de trabalhar ou deixa de atender a um compromisso para ter uma projeção ou receber um espírito, se deixa um local de lazer em que estava feliz devido a supostas "más influências espirituais", ou se isso se confunde com a realidade em qualquer modo, temos uma situação delirante ou alucinatória, ESPECIALMENTE se imposta aos demais. Vale para o maluco, vale para o guru. Outra coisa bem diferente é uma pessoa ter sua vida normal, e dedicar um momento e um lugar para uma atividade espiritual. Transes assim não podem ser considerados psicóticos (ao contrário, quem acusa incorre em desrespeito constitucional). Do mesmo modo, projeções saudáveis de pessoas ídem que são pessoais e circunscritas ao ambiente de fora da vigília não afetam em nada sua Normalidade (há religiões em todas épocas e culturas, é "normal"), sua Salubridade (não faz mal, não é patologia), sua Naturalidade (ocorre com muitos, sempre, é da natureza) ou funcionalidade.

3) O que garante que este mundo à sua frente não seja um "delírio da mente"? Se estudar a história da filosofia, ou mesmo a religião oriental, verá que esta resposta não é tão simples quanto parece.

Entretanto, temos um acesso FENOMENOLÓGICO ao que chamamos de "realidade". Me parece que há um MacBook Pro à minha frente. Eu lido com esses "objetos" à medida em que se apresentam à minha consciência, mesmo que eu nunca possa vir a saber o que tudo isso que me cerca sensorialmente seja - se é que "são".

Nesse sentido, os estados alterados de consciência (projeção aí incluída) são percepções fenomenológicas DE QUEM AS TEM, e não de quem as julga. Um projetor AFIRMA QUE experienciou determinada realidade, de modo tão real quanto acredito que este MacBook esteja à minha frente. Então isso é uma realidade fenomenológica DELE, válida só para ele. O que chamamos de projeções, via de regra, não são sonhos. São caracterizadas por um estado de lucidez e consciência bem superior ao da vigília.  Se eu desconfiar de algumas de minhas projeções (e desconfio), preciso desconfiar também da realidade do mundo que me cerca (e desconfio). Mas de algum modo preciso viver com os fenômenos que experiencio, e nesse sentido, há vida nesta realidade, assim como há na projeção. Não é o OUTRO, que não teve, que pode dizer se quem teve de fato teve, ou não. 

Mas, concordo que muitas pessoas fantasiam que certas experiências mais parecidas com sonhos teriam sido "projeções", "realidades astrais". Isso talvez porque seja difícil lidar com a atitude que nossos processos inconscientes - sonhos inclusive - nos pedem. Melhor dizer que foi tudo uma "visita astral", que além de reforçar o nosso ego, ainda dá o caso por encerrado. Por isso creio que as considerações psíquicas não podem ser desconsideradas do fenômeno espiritual, ao contrário. Cada camada transcendente exige forte fundamentação no patamar anterior. Transcender é incluir. A vida transcende o físico porque o contém. Sem físico, moléculas, átomos, não há vida. A mente transcende a biologia porque a contém. Sem células, não há mente. Com cérebro físico defeituoso, teremos problemas nos processos mentais. As camadas superiores INCLUEM as demais. E portanto, sem mente e psiquismo, não teremos as camadas ditas astrais e espirituais, como as acessamos aqui. Portanto, é IMPOSSÍVEL uma boa fundamentação espiritual SEM uma boa fundamentação psíquica, biológica e física. Mentes sãs em corpos sãos, diziam os antigos gregos. E espíritos sãos em psiquismos sãos.

Portanto, concluindo, fenômenos dessa natureza são, no mínimo, inconscientes, e devem estar no campo de interesse de um analista - e, porque não, de um neurocientista. E para se rotular algo de "delírio", é preciso de um pouco mais de consistência e conhecimento, se não da experiência subjetiva e inacessível experienciada PELO OUTRO, pelo menos do que a própria palavra "delírio" significa e implica, e dos conceitos mínimos de epistemologia, fenomenolofia e psicopatologia aplicadas à questão.

Lázaro Freire
Psicanalista Transpessoal
http://voadores.com.br/clinica

--
Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br


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